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sexta-feira, 8 de abril de 2011

Osho - Medo

“É muito perigoso sermos bem-sucedidos num mundo louco porque toda a gente nos quer matar – seja por que motivo for; certo ou errado, não importa. Toda a Alemanha se deixou convencer não porque houvesse algum sentido nas afirmações de Adolf Hitler, mas porque todos os alemães tinham inveja da inteligência dos judeus, do seu sucesso, da sua riqueza, do seu estilo de vida. Por causa desta inveja, Adolf Hitler persuadiu mesmo os alemães mais inteligentes a agir como animais.
E hoje em dia as armas que Adolf Hitler usou são como brinquedos de crianças. Desde a Segunda Guerra Mundial, a tecnologia evoluiu muito e tornou-se muito mais sofisticada…e ainda está na mão de todo o tipo de políticos, e os políticos são pessoas psicologicamente doentes. O próprio desejo de poder é uma doença.
Um homem saudável quer amar, não quer possuir, não quer dominar. Um homem saudável desfruta da vida, não anda por aí a implorar votos. As pessoas que querem ter poder são pessoas que sofrem de um profundo sentimento de inferioridade, querem provar a si próprias e aos outros que são superiores. As pessoas realmente superiores não querem saber de poder. Elas conhecem a sua superioridade, vivem a sua superioridade. Vivem a sua superioridade nas suas canções, nas suas danças, na sua poesia, nas suas pinturas, na sua música. Só as pessoas inferiores se dedicam à política.”

Osho – “Medo”

domingo, 15 de agosto de 2010

O Poder do Obrigado

O Schuster Performing Art Center em Dayton, no Ohio, é um complexo impressionante. Muitas cidades quatro vezes maiores que Dayton não têm ma sala de espectáculos tão boa como aquela. Schuster é um edifício chamativo com tectos abobadados, salas de refeições privadas, salas de ensaios de música e uma sala de espectáculos com uma acústica perfeita que garante a excelência de todos os lugares. No entanto, a verdadeira jóia do centro de artes performativas encontra-se nos bastidores, o seu nome é Kim.
Conheci Kim aquando do convite da Dayton Junior League (organização feminina de carácter educativo e de solidariedade, cujo objectivo consiste em melhorar a comunidade através do voluntariado e formação. A formação é direccionada aos membros da comunidade e tem como objectivo desenvolver as competências destes em práticas de solidariedade e civismo) para ser oradora durante 2 dias no seu Town Hall Lecture Series (sessões de esclarecimento e de promoção de debate organizadas anualmente pelos municípios que têm como objectivo educar e informar os cidadãos sobre diversos assuntos de cariz social e cívico). É sempre um pouco intimidatório falar para estes grupos. Sou frequentemente convidada na qualidade de oradora, mas, apesar de o fazer há muitos anos (e de falar para 5 milhões de pessoas diariamente na televisão), sinto sempre uma certa ansiedade.
[…]
A agradecida Deb – que estava em risco de se tornar na Deb intrometida – resolveu intervir. A minha oportunidade surgiu graças aos sapatos.
As meninas da Junior League estavam vestidas a rigor: maquilhagem e penteados fantásticos, vestidos primaveris bonitos e um calçado da moda. Aqueles sapatos eram incríveis! As oficiais que iam intervir em palco estavam em linha, e era impossível não reparar nos sapatos: altos, brilhantes e muito sexy. As raparigas riam-se sobre as dores que sentiam nos pés, mas todas concordamos: às vezes é necessário sofrer em prol da beleza. Cada uma de nós podia estar em sofrimento, mas sentíamo-nos nas nuvens por calçarmos aqueles sapatos.
Pensei que Kim – com a sua altura e fabulosas pernas longas escondidas por dentro daquelas Levis – ficaria lindíssima calçando aqueles sapatos super sexy. Com algum tempo de sobra, enquanto as meninas da Junior League actuavam em palco, abordei-a. “Estás a permitir que todos estes rapazes te desconsiderem. Só porque eles são rapazes não quer dizer que tenhas que te transformar num. Abraça a tua feminilidade” disse-lhe. “És uma mulher muito bonita, mas estás a esconder esse facto!”
Apontei para as suas sapatilhas. “Esses sapatos por exemplo” e não parei. “Percebo que haja alturas que tenhas de calçar sapatilhas, quando esta para a frente e para trás a montar palco, mas hoje não é um desses dias. O que tens para fazer resume-se a mandares-me para o palco na altura certa.”
Tirei um dos meus sapatos e coloquei-o ao lado das calças. “Vês como estes sapatos ficam bem com essas calças? E essa t-shirt branca é perfeita. Veste um casaco por cima e ficas a Miss Super Chique.” E antes que Kim pudesse vir com o argumento de que “os sapatos são caros”, adiantei-me.
“Olha, não tens de gastar uma fortuna em sapatos. Podes ir à Payless (loja de sapatos, com muita variedade e preços muito competitivos) e comprar uns sapatos fantásticos a caminho de casa esta noite. Ou consulta alguns catálogos. Comprei uns sapatos de pele por 30 dólares! O teu marido não vai reparar que gastaste dinheiro.” Fiz uma pausa para acrescentar intensidade. “Aquilo em que reparará é na mulher extraordinária que vem a caminhar na sua direcção ao final do dia.”
[…]
Olhei para Kim. Ela era mesmo bonita – mas era fácil não reparar na sua beleza. Temi que as pessoas não estivessem a reparar na Kim.
“Promete-me – até ao final da semana – vais experimentar os sapatos. Podes guardar as sapatilhas e calçá-los sempre que for necessário, mas experimenta os sapatos.”
“Veremos…” afirmou com pouca convicção, mas estava a sorrir.

[...]

São agora 12h26, e aqui estou eu sentada enquanto escrevo, com os olhos lavados em lágrimas e o coração repleto de gratidão. Aqueles breves minutos que passei com Kim nos bastidores fizeram uma diferença na sua vida.
Ela conta-me que agora faz questão de dedicar algum tempo a pôr maquilhagem. Diz-me também que de vez em quando se lembra de mim: “A tentar recordar-me que apesar de trabalhar com homens não tenho que me vestir como eles. E por isso, OBRIGADA.”
Não, Kim. Eu é que agradeço. O que a Kim provavelmente não percebe é do quanto ela me deu. A maioria de nós nunca toma conhecimento do impacto que tem na vida dos outros. Simplesmente assumimos que não temos qualquer influência. Kim, obrigada por me lembrares que todos nós, nos momentos mais comuns do dia-a-dia, temos o poder de operar magia na vida de alguém. Esse lembrete é um presente para todos nós - e por isso, estou muito grata.

Deborah Norville – "O Poder do Obrigado"

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Cartas e Telegramas

"Quando as pessoas têm de memorizar alguma coisa, esta tem de ser muito telegráfica e o mais sintética possível. Depois de ter surgido a escrita, essa concisão desapareceu. Os assuntos já podiam ser explicados em inúmeras páginas de texto. Mas convém salientar que quando recebemos uma carta comprida, quando mais extensa esta é, menos importante é o seu conteúdo. Mas quando recebe um telegrama, este é, naturalmente, constituído apenas por oito ou dez palavras, logo o se conteúdo e impacto são enormes."

Pequena parte de Osho - Acreditar no Impossível.

domingo, 11 de abril de 2010

Promessas e Sacrifícios

Existem fantasmas e existe amor,
E ambos estão presentes aqui.
Para quem tem ouvidos, esta história conta
A verdade do amor, se ele estiver por perto.

"Harris Presser nasceu em 1843, filho dos donos de uma pequena loja de fabrico de velas que existia no centro de New Bern. Quando começou a Guerra da Independência do Sul, Harris, como sucedeu com a maioria dos homens daquela época, quis lutar para defender a Confederação. Contudo, como era filho único, tanto a mãe como o pai lhe pediam que não se alistasse. Ao satisfazer o desejo dos pais, Harris Presser selou o seu destino de forma irrevogável. - Apaixonou-se - Kathryn Purdy tinha apenas 17 anos e, como Harris, também era filha única. Os seus pais eram donos do hotel e da serração de madeiras; eram a família mais rica da terra. Não se davam com os Presser, mas ambas as famílias estavam entre as poucas que ficaram quando New Bern foi tomada pelas forças da União, em 1862. Apesar da guerra e da ocupação, Harris e Kathryn começaram a encontrar-se junto do rio Neuse, no princípio das tardes de Verão, apenas para conversarem, mas os pais dela acabaram por descobrir. Ficaram furiosos e proibiram a filha de voltar a ver Harris, pois os Presser eram considerados pessoas da classe baixa; a proibição teve, porém, o efeito contrário, concorrendo para unir mais o jovem casal. Mas os encontros não eram nada fáceis. Com o tempo, acabaram por conhecer um plano para escaparem aos vigilantes dos pais de Kathryn. Harris ficava na loja dos pais, no fundo da rua, à espera do sinal. Se os pais dela adormecessem, Kathryn punha uma vela no peitoril da janela e Harris esgueirava-se até junto da casa. Subia ao enorme carvalho que havia defronte da janela dela para a ajudar a descer. Seguindo este plano, encontravam-se sempre que podiam e, com o passar dos meses, estavam cada vez mais apaixonados.
Por essa altura, as tropas da União estavam a aumentar a pressão sobre o Sul, pois as notícias chegadas da Virgínia eram más, circulando rumores de que o general Lee estava pronto a desviar o seu exército do Norte da Virgínia e a reconquistar a parte oriental da Carolina do Norte para a Confederação. Foi decretado o recolher obrigatório, pelo que quaisquer ser humano encontrado de noite na rua, especialmente se fosse homem e jovem, arriscava-se a ser morto. Como não podia encontrar-se com Kathryn, Harris passou a trabalhar até tarde na loja dos pais, pondo uma vela acesa na janela para que Kathryn soubesse quanto ele desejava vê-la. Isto continuou durante várias semanas, até que um dia ele conseguiu que um pregador simpático lhe levasse um bilhete a Kathryn, pedindo-lhe que fugisse com ele. Se a resposta fosse afirmativa, ela teria de por duas velas no peitoril: a primeira para indicar a concordância, a segunda era o sinal indicador do momento em que ele poderia ir buscá-la. As duas velas foram acesas pouco depois do anoitecer e, apesar de todas as dificuldades foram casados nessas mesma noite, banhada pela luz da lua cheia, pelo mesmo padre simpático que se encarregara de transportar a mensagem. Todos arriscaram as suas vidas por amor.
Mas, infelizmente, os pais de Kathryn descobriram outra carta de amor secreta, que Harris tinha escrito. Furiosos, confrontaram a filha com o que sabiam. Esta, com ar de desafio, afirmou-lhes que não poderiam fazer nada. Por desgraça, só tinha razão em parte.
Uns dias depois, o pai de Kathryn que tinha relações comerciais com o coronel que comandava as tropas de ocupação da União, informou o militar de que havia um espião da Confederação entre os habitantes da cidade, alguém que tinha contactos com o general Lee, a quem enviava informações sobre as defesas da cidade. Em face dos rumores que davam como provável o ataque do general Lee, Harris Presser foi preso quando se encontrava na loja dos pais. Antes de ser levado para a forca, pediu que lhe fizessem um favor: uma vela devia ser acendida na janela da sua loja. O favor foi concedido. Nessa noite, Harris Presser foi enforcado nos ramos do carvalho gigante que havia em frente da janela de Kathryn. Esta ficou com o coração despedaçado e sabia que o seu pai era o responsável.
Foi à loja dos pais de Harris e pediu que lhe dessem a vela que tinha sido acesa na noite em que o filho deles foi morto. Despedaçados pelo desgosto, mal sabiam o que fazer com aquele pedido tão estranho, mas ela explicou que queria guardar qualquer coisa que lhe recordasse «o jovem simpático que tinha sido sempre tão cortês para ela». Deram-lhe essa vela e nessa noite ela acendeu as duas velas e colocou-as no peitoril da janela. Os pais encontraram-na na manhã seguinte. Tinha-se suicidado, enforcando-se nos ramos do mesmo carvalho gigante.
As velas arderam durante a noite toda e no dia seguinte, até se formarem dois pequenos montes de cera. Mas continuaram a arder. Na noite seguinte, e na seguinte. Arderam durante três dias, e depois apagaram-se. No ano seguinte, no dia do aniversário do casamento, o quarto sem uso de Kathryn ardeu misteriosamente, mas conseguiram salvar a casa. A família Purdy não teve a mesma sorte: o hotel foi levado por uma cheia do rio e a serração teve de ser vendida para pagamento de dívidas. Arruinados, os pais de Kathryn foram-se embora, abandonaram a casa. Mas...de vez em quando, apareciam pessoas que juravam ter visto duas velas a arder na janela aqui de cima. Outras juravam ter visto apenas uma... mas que havia outra a arder num prédio abandonado no fundo da rua. Mesmo agora, mais de uma centena de anos depois, ainda há pessoas que afirmam ver velas a arder nas janelas de algumas casas abandonadas. E, coisa estranha, só são vistas por jovens casais de apaixonados. Para vós, vê-las ou não, depende dos sentimentos que tiverem em relação um ao outro.”

Em “Uma promessa para toda a vida” de Nicholas Sparks

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Aprender na Vida

"Depois de algum tempo aprendes a diferença, a subtil diferença entre dar a mão e acorrentar uma alma. E aprendes que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança. E começas a aprender que beijos não são contratos e presentes não são promessas. Acabas por aceitar as derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança. E aprendes a construir todas as tuas estradas de hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em meio ao vão.
Depois de algum tempo aprendes que o sol queima se te expuseres a ele por muito tempo. Aprendes que não importa o quanto tu te importas, simplesmente porque algumas pessoas não se importam. E aceitas que apesar da bondade que reside numa pessoa, ela poderá ferir-te de vez em quando e precisas perdoá-la por isso. Aprendes que falar pode aliviar dores emocionais.
Descobres que se leva anos para se construir a confiança e apenas segundos para destruí-la, e que poderás fazer coisas das quais te arrependerás para o resto da vida. Aprendes que verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distâncias. E o que importa não é o que tens na vida, mas quem tens na vida. E que bons amigos são a família que nos permitiram escolher. Aprendes que não temos que mudar de amigos se compreendemos que os amigos mudam, percebes que o teu melhor amigo e tu podem fazer qualquer coisa, ou nada, e terem bons momentos juntos.
Descobres que as pessoas com quem tu mais te importas são tiradas da tua vida muito depressa, por isso devemos sempre despedir-nos das pessoas que amamos com palavras amorosas, pode ser a última vez que as vejamos. Aprendes que as circunstâncias e os ambientes têm influência sobre nós, mas nós somos responsáveis por nós mesmos. Começas a aprender que não te deves comparar com os outros, mas com o melhor que podes ser.
Descobres que se leva muito tempo para se tornar a pessoa que se quer ser, e que o tempo é curto. Aprendes que, ou controlas os teus actos ou eles te controlarão e que ser flexível nem sempre significa ser fraco ou não ter personalidade, pois não importa quão delicada e frágil seja uma situação, existem sempre os dois lados. Aprendes que heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer enfrentando as consequências. Aprendes que paciência requer muita prática.
Descobres que algumas vezes a pessoa que esperas que te empurre, quando cais, é uma das poucas que te ajuda a levantar. Aprendes que maturidade tem mais a ver com os tipos de experiência que tiveste e o que aprendeste com elas do que com quantos aniversários já comemoraste. Aprendes que há mais dos teus pais em ti do que supunhas. Aprendes que nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são disparates, poucas coisas são tão humilhantes e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso. Aprendes que quando estás com raiva tens o direito de estar com raiva, mas isso não te dá o direito de ser cruel.
Descobres que só porque alguém não te ama da forma que desejas, não significa que esse alguém não te ama com tudo o que pode, pois existem pessoas que nos amam, mas simplesmente não sabem como demonstrar ou viver isso. Aprendes que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém, algumas vezes tens que aprender a perdoar-te a ti mesmo. Aprendes que com a mesma severidade com que julgas, poderás ser em algum momento condenado. Aprendes que não importa em quantos pedaços o teu coração foi partido, o mundo não pára para que tu o consertes. Aprendes que o tempo não é algo que possa voltar para trás.
Portanto, planta o teu jardim e decora a tua alma, ao invés de esperares que alguém te traga flores. E aprendes que realmente podes suportar mais, que és realmente forte, e que podes ir muito mais longe depois de pensar que não se pode mais. E que realmente a vida tem valor e que tu tens valor diante da vida!
As nossas dádivas são traidoras e fazem-nos perder o bem que poderíamos conquistar, se não fosse o medo de tentar."

William Shakespeare

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Vida

“Já perdoei erros quase imperdoáveis, tentei substituir pessoas insubstituíveis e esquecer pessoas inesquecíveis. Já fiz coisas por impulso, já me decepcionei com pessoas quando nunca pensei decepcionar-me, mas também decepcionei alguém.
Já abracei para proteger, ri quando não podia, fiz amigos eternos, gritei e pulei de tanta felicidade, vivi de amor e fiz juras eternas mas "destrocei corações" muitas vezes!
Já chorei ouvindo música e vendo fotos, já liguei só para escutar uma voz, já me apaixonei por um sorriso e ainda vivo!
Não passo pela vida... e tu também não deverias passar por ela. Vive!
Bom mesmo é ir à luta com determinação, abraçar a vida e viver com paixão, perder com classe e vencer com ousadia, porque o mundo pertence a quem se atreve e a vida é muito para ser insignificante"

Charlie Chaplin in Vida Autor por Augusto Branco

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

“Dir-lhe-ei o que é escolher”

“Então Faulques falou durante um bocado – à sua maneira, entre pausas prolongadas e silêncios – de escolhas e acasos. Fê-lo referindo-se ao franco-atirador junto de quem passara quatro horas deitado no chão do terraço de um edifício de seis andares de onde se dominava uma vista ampla de Sarajevo. O franco-atirador era um sérvio-bósnio de uns quarenta anos, magro e de olhos tranquilos, que cobrara a Faulques duzentos marcos para o deixar ficar ao seu lado enquanto disparava sobre as pessoas que corriam a pé ou passavam a toda a velocidade de automóvel pela avenida Radomira Putnika, na condição de o fotografar a ele e não à rua, para evitar que localizassem a sua posição através do enquadramento. Conversaram em alemão durante a vigília, enquanto Faulques brincava com as máquinas para que o outro se habituasse a elas, e o seu interlocutor fumava um cigarro atrás do outro, inclinando-se de uma espingarda SVD Dragunov, encaixada entre dois sacos de terra, onde estava apoiada uma potente mira telescópica que apontava para a rua, através de uma fresta estreita aberta na parede. Sem complexos, o sérvio tinha admitido que disparava igualmente contra homens, mulheres ou crianças e Faulques não lhe fez perguntas de índole moral, entre outras coisas porque não estava ali para isso e também porque conhecia sobejamente – não era o seu primeiro franco-atirador – os motivos simples pelos quais um homem com as doses correctas de fanatismo, rancor ou desejo de lucro mercenário podia matar indiscriminadamente. Fez perguntas técnicas, de profissional para profissional, acerca das distâncias, campo de visão, influência do vento e da temperatura na trajectória das balas. Explosivas, especificara o outro num tom de voz objectivo. Capazes de fazer explodir uma cabeça como se fosse um melão sob um martelo, ou rebentar as entranhas com total eficácia. E como escolhes, perguntou Faulques. Refiro-me se disparas ao acaso ou seleccionas os alvos. Então o sérvio expôs uma coisa interessante. Nisto não há acaso, explicou. Ou havia muito pouco: o necessário para que alguém decidisse passar ali no momento certo. O resto era coisa sua. A alguns matava-os, a outros não. Tão fácil como isso. Dependia da forma de andar, de correr, de parar. Da cor do cabelo, dos gestos, da atitude. Das coisas a que os associava ao vê-los. No dia anterior tinha estado a apontar para uma rapariguinha ao longo de quinze ou vinte metros e, de repente, um gesto casual desta fê-lo pensar na sua sobrinha pequena – nesse ponto, o franco-atirador abriu a carteira e mostrou a Faulques uma fotografia familiar. – De modos que não atirou sobre ela, escolhendo em troca uma mulher que estava perto, debruçada a uma janela, quem sabe, talvez à espera de ver como matavam a rapariga que caminhava distraída a descoberto. Por essa razão dizia que isso do acaso era relativo. Havia sempre alguma coisa que o fazia decidir-se por este ou por aquele, dificuldades operacionais à parte, claro. Nas crianças, por exemplo, era mais difícil acertar porque nunca estava quietas. Passava-se o mesmo com os condutores de automóveis em andamento: às vezes deslocavam-se depressa de mais. De repente, a meio da explicação, o franco-atirador ficara tenso, as suas feições pareceram definhar e as suas pupilas contraíram-se enquanto se inclinava sobre a espingarda, ajustava a culatra ao ombro, colava o olho direito no visor e colocava suavemente o dedo no gatilho. Jagerei, sussurrara no seu mau alemão, entre os dentes, como se lá em baixo o pudessem ouvir. Caça à vista. Decorreram alguns segundos enquanto a espingarda descrevia um lento movimento circular para a esquerda. Depois, com um único estampido, a culatra bateu-lhe no ombro e Faulques pôde fotografar o primeiro plano daquela cara magra e tensa, com um olho semicerrado e o outro aberto, a pele por barbear, os lábios apertados como uma linha implacável: um homem qualquer, com os seus critérios selectivos, as suas recordações, antipatias e inclinações, fotografado no momento exacto de matar. Bateu ainda uma segunda chapa quando o franco-atirador afastou a cara da culatra da espingarda, olhou para a objectiva da Leica com olhos gelados e, depois de beijar ao mesmo tempo os três dedos da mão que tinha disparado, polegar, indicador e médio, fez com eles a saudação sérvia da vitória. Queres que te diga em quem acertei?, perguntou. Porque escolhi esse alvo e não outro? Faulques, que verificava a luz com o fotómetro, não quis saber. A minha máquina não fotografou isso, disse, logo não existe. Então o outro olhou para ele em silêncio durante algum tempo, sorriu apenas, depois ficou sério e perguntou-lhe se há dois dias tinha passado junto da ponte Masarikov ao volante de um Volkwagen com fita adesiva vermelha sobre o capo. Faulques ficou imóvel por instantes, acabou de guardar o fotómetro no se saco de lona e respondeu com outra pergunta cuja resposta adivinhava. Então o sérvio deu uma palmada leve na Zeiss telescópica da sua espingarda. Porque te tive, respondeu, nesta mira durante quinze segundos. Restavam-me apenas duas balas e, depois de pensar, disse para comigo: hoje não vou matar este glupan. Este tonto.”

Em “O Pintor de Batalhas” de Arturo Pérez-Reverte.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Da revolução aos desabafos!

Enquanto se lia um pomea do (nosso) bem conhecido Eugénio de Andrade, preparavam-se os militares para o golpe que viria a mudar Portugal.

É por orgulho que já não sobes
as escadas? Terás adivinhado
que não gostei desse ajuste de contas
que foi a tua agonia?
É só por isso que não vieste
este verão bater-me à porta?
Não sabes já
que entre mim e ti
há só a noite e nunca haverá morte?

Não te faltou orgulho, eu sei;
orgulho de ergueres dia a dia
com mãos trementes
a vida à tua altura
-mas a outra face quem a suspeitou?
Quem amou em ti
o rapazito frágil, inseguro,
a irmã gentil que não tivemos?

Escreveste como o sangue canta:
de-ses-pe-ra-da-men-te.
e mostraste como não é fácil
neste país exíguo ser-se breve.
Talvez o tempo te faltasse
para pesar com mão feliz o ar
onde sobrou
um juvenil ardor até ao fim.

No que nos deixaste há de tudo,
desde o copo de água fresca,
Um aroma adolescente,
ao uivo de lobos acossados,
o ínfimo azul do alcatrão
uma torrente, uma fragata,
algumas putas,
um soldado de olhos inocentes.
Há quem prefira ler-te os versos,
outros a prosa, alguns ainda
preferem o que sobre a liberdade
de ser homem
foste deixando por aí
em prosa ou verso, e tangível
brilha
onde antes parecia morta.

Às vezes orgulhavas-te
de ter, em vez de uma, duas pátrias;
pobre de ti: não tiveste nenhuma;
ou tiveste apenas essa
que te roía o coração
fiel às palavras da tribo.

Andaste por muito lado a ver se o mundo
era maior que tu – concluíste que não.
Tiveste mulher e filhos portuguesmente
repartidos pela terra,
e alguns amigos,
entre os quais me conto.
E se conta o vento.

As palavras que se perderam no tempo não se calam hoje nas memórias que quem viveu, para uns, o melhor dia das suas vidas, para outros, o mártire de que as coisas entraram num novo rumo ainda pior.

«Sempre a merda do futuro, e eu que me quilhe, pois pá, sempre a merda do futuro, a merda do futuro, e eu hã? Que é que eu ando aqui a fazer? Digam lá, e eu? José Mário Branco, 37 anos, isto é que é uma porra, anda aqui um gajo cheio de boas intenções, a pregar aos peixinhos, a arriscar o pêlo, e depois? É só porrada e mal viver é?[...]Eu sou parvo ou quê? Quero ser feliz porra, quero ser feliz agora, que se foda o futuro, que se foda o progresso, mais vale só do que mal acompanhado, vá mandem-me lavar as mãos antes de ir para a mesa, filhos da puta de progressistas do caralho da revolução que vos foda a todos! Deixem-me em paz porra, deixem-me em paz e sossego, não me emprenhem mais pelos ouvidos caralho, não há paciência, não há paciência, deixem-me em paz caralho, saiam daqui, deixem-me sozinho, só um minuto, vão vender jornais e governos e greves e sindicatos e policias e generais para o raio que vos parta! Deixem-me sozinho, filhos da puta, deixem só um bocadinho, deixem-me só para sempre, tratem da vossa vida que eu trato da minha, pronto, já chega, sossego porra, silêncio porra, deixem-me só, deixem-me só, deixem-me só, deixem-me morrer descansado.[...]Deixem-me só porra, rua, larguem-me, desópila o fígado, arreda, 'terneio' Satanás, filhos da puta.[...]Desandem daqui para fora, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe...»

E hoje, que é feito de um futuro que nunca chegou?

Artigos de Apoio:
http://absorto.blogspot.com/2005/06/eugnio-de-andrade-ii.html
http://fora-de-cena.blogs.sapo.pt/87462.html

Voz dos textos principais:
http://www.youtube.com/watch?v=HbNDUgDFSeE

domingo, 2 de setembro de 2007

Velha Moeda

Brown Penny,
de William Butler Yates.

Eu sussurrei: "Sou muito jovem".
Depois: "Tenho a idade certa".
Antes de atirar uma moeda
para saber se eu deveria amar.
"Vá amar, vá amar meu jovem."
"Se a moça for jovem e justa."
Oh, velha moeda, velha moeda.
Estou enrolado nos rolos dos seus cabelos.
O amor é vincado.
Não existe ninguém sábio o suficiente
para descobrir do que é feito
pois ele estaria a pensar no
amor até as estrelas se apagarem
e as sombras devorarem a lua.
Oh, velha moeda, velha moeda.
Nunca é cedo...
para começar.

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